Literatura Japonesa (parte 6) - Literatura moderna

Literatura moderna

Mesmo depois da chegada da frota naval americana do comodoro Matthew C. Perry em 1853, e da gradual abertura do país para o Ocidente e suas influências, inicialmente houveram poucos efeitos notáveis na literatura japonesa. O longo isolamento do país e a mesmice geral da sociedade Tokugawa por décadas de certa maneira pareceu ter atrofiado a imaginação dos escritores de gesaku. Mesmo a presença de estrangeiros vestidos de forma curiosa, que deveria ter causado algum tipo de reação em autores procurando por inspiração, de começo produziu poucos efeitos. Os escritores gesaku desconheciam as mudanças na sociedade japonesa e eles continuaram a utilizar variantes mínimas dos mesmos temas banais dos últimos 200 anos.

Foi apenas depois da mudança da capital para o Edo (renomeada Tóquio) em 1868 e a declaração pelo imperador Meiji de que ele iria buscar conhecimento pelo mundo inteiro, que os escritores gesaku perceberam que seus dias de influência estavam contados. Eles logo foram atacados pelos seus velhos inimigos, confucionistas que denunciavam livros imorais, e também por defensores dos novos ensinamentos ocidentais. Mesmo que os escritores gesaku tenham respondido com peças satíricas e ficções tradicionais japonesas ridicularizando os novos ensinamentos, eles eram incapazes de resistir às mudanças que transformavam toda a sociedade.

Introdução da literatura ocidental

Traduções das línguas europeias de trabalhos não-literários começaram a surgir logo após a Restauração Meiji. O mais famoso exemplo era a tradução (em 1870) de "Auto-ajuda", por Samuel Smiles; a obra se tornou uma espécie de Bíblia para os jovens japoneses ambiciosos que desejavam imitar exemplos ocidentais de sucesso. A primeira importante tradução de um romance europeu era "Ernest Maltravers", pelo romancista britânico Edward Bulwer-Lytton, que surgiu em 1879 sob o título de Karyū shunwa ("Um Conto de Primavera sobre Flores e Salgueiros"). As primeiras traduções eram imprecisas e os tradutores deletavam, sem cerimônia, qualquer passagem que eles não pudessem entender prontamente ou que eles temessem ser ilegíveis aos leitores japoneses. Eles também se sentiam obrigados a assegurar os leitores de que, apesar dos personagens terem nomes estrangeiros, as emoções que eles sentiam eram exatamente as mesmas que os japoneses.

Não demorou muito, porém, para que os tradutores descobrissem que a literatura japoneses possuía qualidades nunca antes encontradas nas obras japonesas do passado. O estudioso literário Tsubouchi Shōyō, por conta das suas leituras de ficções e críticas européias, foi levado a rejeitar a didática como um propósito legítimo da ficção; ele insistia, ao invés disso, nos seus valores artísticos. Seu ensaio crítico Shōsetsu shinzui (1885-86; A Essência do Romance) influenciou em muito a escrita de ficções subsequentes, não apenas por sua ênfase no realismo como oposição à didática, mas também porque Shōyō, um membro da classe samurai, expressou a convicção de que romances, até agora desprezados pelos intelectuais como mero entretenimento para mulheres e crianças, eram dignos até mesmo da atenção dos estudiosos.

A primeira novela moderna japonesa foi o Ukigumo (1887-89; "Nuvem à Deriva"; tradução inglesa Japan's First Modern Novel), por Futabatei Shimei, que era acostumado com a literatura russa e com a crítica literária ocidental contemporânea. Futabatei escreveu Ukigumo em linguagem coloquial, aparentemente porque suas leituras da literatura russa o convenceram de que apenas a linguagem coloquial poderia ser usada quando descrevendo a própria sociedade do autor. Apesar do sucesso de Futabatei com esse experimento, a maioria dos escritores japoneses continuaram a empregar a linguagem literária até o fim daquele século. Isso se deve, sem dúvidas, à relutância deles em desistir da rica herança da expressão tradicional em favor de uma linguagem moderna pouco adornada.

Influências ocidentais na poesia

Traduções da poesia ocidental levaram à criação de novas formas literárias japonesas. A coleção pioneira Shintaishi-shō (1882; "Seleção de Poemas no Novo Estilo") continham não apenas traduções do inglês, mas também cinco poemas originais pelos tradutores nos gêneros poéticos de inspiração estrangeira. Os tradutores declararam que, apesar de a poesia européia possuir maior variedade que a japonesa — alguns poemas são rimados, outros não possuem rimas, alguns são extremamente longos, outros abruptos —, eram invariavelmente escritos na linguagem da fala comum. Uma insistência em linguagem moderna e a disponibilidade de muitas formas poéticas diferentes não foram as únicas lições oferecidas pela poesia européia. Os tradutores também fizeram o público japonês ter consciência de quantas experiências humanas nunca foram abordadas nas formas tanka e haiku.

Inúmeros críticos ocidentais comentaram com sarcasmo sobre a tendência japonesa em imitar os modelos de literatura estrangeira e suas supostas indiferenças em relação às próprias tradições. É verdade que sem as referências russas, Futabatei não poderia ter escrito o Ukigumo, e sem as referências inglesas, poetas como Shimazaki Tōson não poderiam ter criado a poesia japonesa moderna. Mas longe de estarem abandonando suas heranças literárias imprudentemente, a maioria dos escritores já sofriam muito para se adequarem à sua própria literatura tradicional. Os notáveis novelistas da década de 1890 — Ozaki Kōyō, Kōda Rohan, Higuchi Ichiyō e Izumi Kyōka — todos leram Saikaku e eram notavelmente influenciados por ele. A curta novela de Ichiyō, Takekurabe (1895; Crescendo) descreveu as crianças do distrito Yoshiwara do Edo de uma maneira realista, bem diferente das histórias comuns sobre prostitutas e seus clientes, mas ela usou a linguagem de Saikaku na sua narração. Kyōka, apesar de ter sido parcialmente educado em uma escola missionária ocidental, escreveu orgulhosamente nos moldes da ficção Tokugawa tardia; algo do passado literário japonês permeou até mesmo seus escritos da década de 1930, os últimos anos de sua vida.

Na poesia, também, os primeiros produtos de influência ocidental eram tentativas cômicas ineficazes com rimas e com assuntos pouco promissores como os princípios da sociologia. O "Akikaze no uta" (1896; "Música do Vento de Outono") de Tōson, porém, não é apenas uma reprodução engenhosa de Percy Bysshe Shelley, mas um retrato real de uma paisagem japonesa; as linhas irregulares do seu poema tendem a se encaixar nos padrões tradicionais de cinco e sete sílabas.

Uma década depois dos trabalhos de poetas ingleses românticos como Shelley e William Wordsworth terem influenciado a poesia japonesa, as traduções feitas por Ueda Bin dos poetas franceses parnasianos e simbolistas deixaram uma marca ainda mais poderosa. Ueda escreveu, "a função dos símbolos é a de ajudar a criar, no leitor, um estado emocional similar àquele na mente do poeta; símbolos não necessariamente comunicam o mesmo conceito para todos". Essa visão foi emprestada do ocidente, mas estava perfeitamente de acordo com as qualidades do tanka.

Por conta das ambiguidades da expressão poética tradicional japonesa, era natural que um determinado poema produzisse efeitos diferentes sobre leitores diferentes; o ponto importante, como na poesia simbolista, era comunicar o estado de espírito do poeta. Se poetas japoneses dos anos 1900 fossem ditos para evitar a contaminação de ideias estrangeiras, eles iriam declarar que isso era contrário ao espírito de uma era iluminada. Mas quando informados que os célebres poetas estrangeiros preferiam a ambiguidade à clareza, os japoneses responderam com o dobro de entusiasmo.

Revitalização do tanka e do haiku

Até mesmo as formas tradicionais, tanka e haiku, apesar de moribundas em 1868, ganharam uma nova vida em grande parte graças aos esforços de Masaoka Shiki, um poeta do fim do século 19 notável em ambas as formas, mas ainda mais importante como crítico. Yosano Akiko, Ishikawa Takuboku e Saitō Mokichi eram provavelmente os mais bem sucedidos praticantes do novo tanka. A coleção de Akiko, Midaregami (1901; Cabelo Emaranhado) mexeu especialmente com leitoras femininas, não apenas por sua beleza lírica mas porque a própria Akiko parecia estar proclamando uma nova era para o amor romântico. Takuboku, no seu curto período de vida (ele morreu em 1912 aos 26 anos), possivelmente surgiu como o poeta tanka mais popular de todos os tempos. Seus versos eram repletos de expressões únicas surpreendentes de sua personalidade orgulhosa. Saitō Mokichi combinou uma assimilação do estilo do Man’yōshū com uma competência profissional em psiquiatria. Apesar da natureza severa da sua poesia, ele foi reconhecido por muitos anos como o principal poeta do tanka. No haiku, Takahama Kyoshi construiu uma herança de poetas fortes o suficiente para resistir aos ataques dos críticos que declaravam que a forma era inadequada para lidar com os problemas da vida moderna. O próprio Kyoshi eventalmente decidiu que a função do haiku era a função tradicional, uma apreensão intuitiva das belezas da natureza, mas outros poetas haiku empregaram o meio para expressar temas totalmente inconvenientes.

A maioria dos poetas do tanka e do haiku continuaram a usar a linguagem clássica, provavelmente porque era relativamente concisa e os permitia transmitir maiores conteúdos nos seus versos do que o japonês moderno. Poetas do "novo estilo", portanto, estavam mais dispostos a empregar a linguagem coloquial. Hagiwara Sakutarō, geralmente considerado o melhor poeta japonês do século 20, explorou de forma brilhante as possibilidades musicais e expressivas da língua moderna. Outros poetas, como Horiguchi Daigaku, se dedicaram a traduzir a poesia europeia, alcançando resultados em japonês tão atrativos que suas traduções eram consideradas como uma importante parte da poesia moderna japonesa.

O romance entre 1905 e 1941

A corrente dominante na ficção japonesa desde a publicação de Hakai (1906; O Mandamento Quebrado) por Shimazaki Tōson, e de Futon (1907; O Colchão) por Tayama Katai, era o naturalismo. Apesar do movimento ter sido originalmente inspirado pelos trabalhos do novelista francês do século 19 Émile Zola e outros naturalistas europeus, ele rapidamente tomou uma entonação japonesa distinta, rejeitando (como um estudioso confucionista rejeitaria a ficção gesaku) tramas desenvolvidas cuidadosamente ou belezas estilísticas em favor da verossimilhança absoluta nas confissões do autor ou nas descrições que o autor fazia sobre a vida de pessoas pouco importantes encurraladas por circunstâncias fora do seu controle.

Por consenso geral, porém, os dois novelistas proeminentes do começo do século 20 eram homens que estavam fora do movimento naturalista, Mori Ōgai e Natsume Sōseki. Ōgai começou como um escritor de ficções parcialmente autobiográficas, com fortes conotações da literatura romântica alemã. Em meio à sua carreira, ele mudou para novelas históricas que eram praticamente desprovidas de elementos fictícios, mas são distintos por seu estilo conciso. Sōseki ganhou fama com novelas humorísticas como Botchan (1906; "O Jovem Mestre"; tradução inglesa Botchan), um relato ficcionalizado das suas experiências como professor em uma cidade provincial. Botchan recebeu popularidade fenomenal na primeira vez que surgiu. É a mais acessível das novelas de Sōseki, e os japoneses sentiam prazer em identificar a si mesmos com o herói impetuoso e irresponsável, ainda que minimamente decente. A entonaçao das novelas subsequentes de Sōseki se tornaram progressivamente mais obscuras, mas mesmo as mais sombrias mantiveram sua reputação entre os leitores japoneses, que tomam por garantido que Sōseki é o maior dos novelistas modernos japoneses e que encontram ecos em suas próprias vidas dos sofrimentos mentais que ele descreveu. Sōseki escreveu principalmente sobre intelectuais vivendo em um Japão que foi brutalmente impulsionado para o século 20. Sua novela mais conhecida, Kokoro (1914; "O Coração"; tradução inglesa Kokoro), gira ao redor de outra situação comum em suas novelas, dois homens apaixonados pela mesma mulher. Sua última novela, Meian (1916; Luz e Sombras), apesar de incompleta, foi aclamada por muitos como sua obra-prima.

Uma incrível explosão de atividade criativa ocorreu na década que seguia o fim da Guerra Russo-Japonesa em 1905. É provável que nunca antes na história da literatura japonesa houveram tantos escritores importantes trabalhando ao mesmo tempo. Os três novelistas que primeiro foram ressaltados nessa época foram Nagai Kafū, Tanizaki Jun’ichirō e Akutagawa Ryūnosuke. Nagai Kafū era apaixonado pela cultura francesa e descrevia com desprezo a superfície pretensiosa do Japão moderno. Anos mais tarde, porém, embora ainda alienado da atualidade japonesa, ele demonstrava nostalgia pelo Japão da sua juventude e seus trabalhos mais cativantes continham evocações de traços de um Japão antigo e genuíno que sobreviveu em meio à paródia de cultura ocidental que era Tóquio.

As novelas de Tanizaki, notavelmente Tade kuu mushi (1929; Alguns Preferem Urtigas), com frequência apresentaram um conflito entre os métodos tradicionais japoneses e aqueles inspirados no ocidente. Em seus primeiros trabalhos, ele também declarou preferência pelo ocidente. As visões de Tanizaki mudaram depois que ele se mudou para a região de Kansai após o Grande Terremoto de Kantō de 1923, e seus escritos subsequentes mostraram sua gradual acomodação com a antiga cultura do Japão que ele havia rejeitado anteriormente. Entre 1939 e 1941, Tanizaki publicou a primeira de suas três versões em linguagem moderna do Genji monogatari. Por vontade própria, ele sacrificou anos da sua carreira para essa tarefa, por sua admiração sem limites pela obra suprema da literatura japonesa.

A novela mais longa de Tanizaki, Sasameyuki (1943-48; As Irmãs Makioka), evocou o Japão de 1930 com nostalgia evidente, quando as pessoas não estavam preocupadas com as perseguições da guerra mas com casamentos arranjados, visitas a campos famosos por suas flores de cerejeiras ou diferenças culturais entre Tóquio e Osaka. Duas novelas pós-guerra por Tanizaki foram muito populares, Kagi (1956; A Chave), o relato da determinação de um professor em ter completa satisfação sexual com sua esposa antes da impotência o tomar, e Fūten rōjin nikki (1961-62; Diário de um Velho Louco), uma obra cômica que descrevia o amor excessivo de um homem muito velho para com sua nora. Nenhum leitor buscaria em Tanizaki qualquer conhecimento sobre como seguir sua vida, nem uma análise profunda sobre a sociedade, mas seus trabalhos não só fornecem os prazeres de uma história bem contada, mas também convém o fenômeno especial da bajulação e rejeição do ocidente que tiveram um papel tão proeminente na cultura japonesa do século 20.

Akutagawa estabeleceu sua reputação como um contador de histórias brilhante que transformou materiais encontrados em antigas coleções japonesas, as incrementando com psicologia moderna. Nenhum escritor teve tantos seguidores em sua época, mas Akutagawa encontrava cada vez menos satisfação em suas reformulações de contos existentes e eventualmente acabou escrevendo sobre si mesmo, às vezes de maneiras angustiantes. Seu suicídio em 1927 chocou todo o mundo literário japonês. A causa exata é desconhecida — ele escreveu sobre um "mal-estar impreciso" — mas talvez Akutagawa se sentiu incapaz de tornar suas experiências pessoais em uma ficção sublime, ou de lhes conceder os tons do movimento literário proletário, que nessa época estava em alta.

O movimento literário proletário no Japão, como em vários outros países, tentou usar a literatura como uma arma para efetuar uma reforma ou até mesmo uma revolução em resposta às injustiças sociais. Apesar do movimento ter ganhado um controle efetivo do mundo literário japonês no fim da década de 1920, a repressão do governo a partir de 1928 eventualmente o destruiu. O principal escritor proletário, Kobayashi Takiji, foi torturado até a morte pela polícia em 1933. Poucos dos escritos produzidos pelo movimento possuem valor literário, mas a preocupação por classes de pessoas que anteriormente haviam sido negligenciadas por escritores japoneses concedem a esses trabalhos um significado especial.

Outros escritores do período, convencidos de que a função essencial da literatura é artística e não propagandística, formaram escolas como os "Neosensualistas" liderados por Yokomitsu Riichi e Kawabata Yasunari. As políticas de Yokomitsu eventualmente se moveram muito para a direita e a proclamação dessas visões, ao invés dos esforços para alcançar o modernismo, tingiram suas últimas obras. Mas os trabalhos de Kawabata (pelos quais ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1968) continuam sendo admirados por seu lirismo e construções intuitivas. Apesar de Kawabata ter começado como um modernista e experimentado técnicas modernistas até o fim da sua carreira, ele é mais conhecido por suas retratações de mulheres, sejam as gueixas de Yukiguni (1948; País Nevado) ou as diferentes mulheres que viviam preocupadas com a cerimônia do chá em Sembazuru (1952; Mil Garças).

Críticos japoneses dividiram a ficção do período pré-guerra em escolas, cada uma normalmente consistindo em um escritor principal e seus discípulos. Provavelmente o autor mais influente foi Shiga Naoya. Sua forma literária característica foi a "Novela do Eu" (watakushi shōsetsu), obras que tratam de materiais autobiográficos com beleza estilística e grande inteligência, mas que não são lembradas por serem originais. A presença dominante de Shiga fez a Novela do Eu ser mais respeitada pela maioria dos críticos do que obras inteiramente de ficção, mas os escritos dos seus discípulos às vezes não são mais do que páginas retiradas de um diário, ou interessantes apenas se o leitor já estiver interessado pelo autor.

A novela pós-guerra

As guerras violentas travadas pelos militares japoneses em 1930 inibiram a produção literária. A censura se tornou cada vez mais rigorosa e era esperado que escritores promovessem os esforços da guerra. Em 1941-45, enquanto a Segunda Guerra Mundial estava acontecendo no Pacífico, pouca literatura de valor surgiu. Tanizaki começou a publicação em série de As Irmãs Makioka em 1943, mas a publicação foi interrompida por ordem oficial e a obra completa surgiu apenas após a guerra. Os anos imediatos pós-guerra demonstraram um período extraordinário de atividade, tanto por gerações mais velhas quanto por novos escritores. O período é descrito de forma vívida nas obras de Dazai Osamu, notavelmente em Shayō (1947; O Sol Poente). Outros escritores descreveram os horrores dos anos de guerra; talvez o mais impactante seja Nobi (1951; Incêndios na Planície) por Ōoka Shōhei, que descreveu os soldados japoneses derrotados nas selvas filipinas. As bombas atômicas soltas em Hiroshima e Nagasaki em 1945 também inspirou muita poesia e prosa, embora muitas vezes fossem descritivos demais sobre o evento para alcançar integridade artística. Poucos trabalhos, especialmente Kuroi ame (1966; Chuva Negra) por Ibuse Masuji, foram bem sucedidos em retratar o horror supremo e indescritível do disastre.

O Japão do período imediatamente pós-guerra e o Japão próspero das décadas de 1950 e 1960 forneceram o contexto para a maioria dos trabalhos de Mishima Yukio, um novelista e dramaturgo excepcionalmente brilhante e versátil que se tornou o primeiro escritor japonês conhecido amplamente no exterior. As obras mais bem conhecidas de Mishima incluem o Kinkaku-ji (1956; O Templo do Pavilhão de Ouro), um estudo psicológico baseado em um incidente real sobre um jovem monge que queimou uma obra-prima arquitetônica famosa; e Hōjō no umi (1965-70; O Mar da Fertilidade), uma tetralogia passada no Japão que abrange o período entre 1912 e 1960. Abe Kōbō foi notável entre os escritores modernos por conseguir, às vezes recorrendo a técnicas vanguardistas, transcender a condição particular de ser japonês e criar mitos universais sobre o sofrimento da humanidade em um trabalho como o Suna no onna (1962; A Mulher nas Dunas). A natureza única da cultura tradicional japonesa, que a tornou um solo infértil para o Cristianismo no século 16, foi tratada em muitas novelas marcantes por Endō Shūsaku, principalmente Chimmoku (1966; Silêncio). Os romances de Kita Morio foram caracterizados por sequências cativantes de humor que providenciaram um contraste agradável à tonalidade obscura que prevalecia nos outros romances japoneses contemporâneas. Seu Nire-ke no hitobito (1963-64; A Casa de Nire), apesar de baseada nas carreiras do seu avô e do seu pai (o poeta Saitō Mokichi), usou do seu humor para não se tornar mais uma Novela do Eu.

Ōe Kenzaburō alcançou a fama cedo na vida, vencendo um grande prêmio literário, o Prêmio Akutagawa em 1958, quando ele tinha 23 anos. Seus primeiros trabalhos eram ambientados principalmente no vale remoto na ilha de Shikoku, onde ele nasceu e cresceu, e ele voltou a essa ambientação em algumas obras seguintes, encontrando nela uma chave essencial para sua vida. Em 1994, ele recebeu o Prêmio Nobel da Literatura, o segundo premiado a um japonês. Embora seu estilo seja complicado e de difícil leitura, ele era capaz de mover seus leitores, particularmente através dos relatos da sua vida com seu filho com danos cerebrais. Diferente da maioria dos autores da geração anterior, Ōe também devotou seus esforços a questões políticas, o trazendo popularidade especialmente entre estudantes universitários e outros empenhados às reformas políticas e sociais.

Por mais de 20 anos depois dele ter ganho o Prêmio Akutagawa, Ōe era considerado o escritor importante mais jovem e críticos lamentaram a escassez de novos escritores promissores. Porém, uma nova geração, representada por Nakagami Kenji e Haruki Murakami, encontraram prestígio não apenas no Japão mas também no exterior, onde seus romances foram traduzidos e admirados. Nakagami, o filho de uma mãe solteira, nasceu no burakumin (a classe inferior tradicional do Japão). Seu passado, o qual ele não tentou esconder, concederam aos seus romances uma intensidade, uma grosseria deliberada e às vezes uma fúria não encontrada nos trabalhos dos seus contemporâneos, a maioria deles de famílias prósperas. Apesar de ser mal vista por Ōe, pois ele percebia nelas a falta de preocupações intelectuais, os romances de Murakami — entre eles o Noruwei no mori (1987; Norwegian Wood), Umibe no Kafuka (2002; Kafka à beira-mar) e 1Q84 (2009-10) — atraíram louvores dos críticos e venderam notavelmente bem. Essa popularidade foi, em partes, devido à sua familiaridade com a cultura popular americana, uma parte integral da vida de jovens ao redor do mundo, mas também às suas habilidades como um contador de histórias altamente talentoso, capaz de misturar eventos reais e o fictícios de forma convincente.

O drama moderno

O teatro moderno japonês teve sua origem nas traduções e adaptações de peças ocidentais no fim do século 19, quando o público ainda estava muito sob a influência do Kabuki para apreciar obras sem música ou dança. O desenvolvimento do drama moderno também foi impedido, paradoxalmente, pelo fato de o Kabuki (diferente da ficção ou poesia tradicional) estava em boa forma no começo da era moderna. As peças de Kawatake Mokuami, compostas tanto antes quanto depois da Restauração Meiji, tornavam o teatro animador e não havia necessidade urgente de uma reforma. Mudanças de fato ocorreram, mas ambos os teatros tradicionais de bonecos quanto o Kabuki conseguiram sobreviver à era da rápida modernização. Tsubouchi Shōyō, que traduziu os trabalhos de William Shakespeare, escreveu várias peças bem sucedidas baseadas em eventos históricos japoneses que combinaram a estrutura e caracterização das peças européias com as técnicas de atuação do Kabuki. Foi deixado para novelistas como Mori Ōgai a tentativa de criar um teatro na tradição do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, ao invés daquelas do Kabuki.

O desenvolvimento do drama moderno foi, por outro lado, dificultado pela introdução de filmes, que tinham um apelo muito maior para o público. Os dramaturgos bem sucedidos das décadas de 1910 e 1920, como Okamoto Kidō, escreveram trabalhos que, apesar de serem produtos de uma mente moderna, preservaram a linguagem cênica tradicional e temas históricos. Mayama Seika escreveu tanto obras tradicionais quanto modernas, mas mesmo nas suas obras mais tradicionais, como sua versão da clássica peça Kabuki do ciclo de Chūshingura, a postura do dramaturgo era aquela de um homem moderno.

O primeiro dramaturgo verdadeiramente moderno provavelmente foi Kishida Kunio, a quem as peças, com suas ambientações contemporâneas, não dependem de cenários elaborados, músicas e histerias para causar efeitos. Kishida era limitado pela escassez de atores capazes de atuar em papéis que os davam pequenas oportunidades de grandiosas demonstrações de emoções. Apenas após a Segunda Guerra Mundial que dramas modernos, que eram capazes de tocar uma audiência internacional, foram escritos e competentemente encenados. As peças de Mishima Yukio e Abe Kōbo foram as primeiras peças japonesas a serem realizadas com sucesso no exterior em muitas línguas.

Poesia moderna

No começo do século 20, foi previsto que as formas tradicionais de poesia japonesa seriam abandonadas por poetas que ansiavam por liberdade nas suas escolhas por temas e vocabulário e que não queriam que seus poemas fossem espremidos em 31 ou 17 sílabas. Masaoka Shiki supôs, se baseando em dados, que cedo ou tarde seria impossível compor um novo poema nas formas tradicionais. Mas os japoneses continuaram a achar o poema curto agradável: uma percepção momentânea que seria diluída se expandida em muitas estrofes pode ser capturada perfeitamente no haiku e, se as formas tradicionais forem muito curtas para narrar as emoções do poeta em detalhes, conotações podem sugerir profundidades além das palavras, assim como pinturas tradicionais sugeriam ao invés de constatar.

De forma alguma todos os poetas "retornaram" às formas tradicionais. Hagiwara Sakutarō escreveu apenas versos livres e isso foi verdade para a maioria dos poetas modernos. Alguns poetas eram fortemente afetados pela poesia moderna européia e americana; durante o período pós-guerra, uma escola de poesia que recebeu do poema de A Terra Devastada por T. S.  Eliot, se baseou no mais sombrio lado de Eliot. Alguns poetas usaram a poesia para propósitos patrióticos durante as campanhas no Pacífico da Segunda Guerra Mundial ou para expressar visões políticas durante os dias turbulentos seguidos da derrota em 1945. Mas a maioria dos japoneses que escreveram poesia moderna na segunda metade do século 20 estavam mais próximos do que nunca dos seus autores respectivos de outros países, compartilhando suas ansiedades acerca das mesmas crises e sentindo a mesma necessidade intensa por amor.


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