Literatura Japonesa (parte 4) - Literatura medieval: períodos Kamakura, Muromachi e Azuchi-Momoyama (1192-1600)
Essa é uma tradução do artigo "Japanese Literature" no site da Encyclopedia Britannica, traduzida do inglês para o português brasileiro.
Fonte original: https://www.britannica.com/art/Japanese-literature
Fonte original: https://www.britannica.com/art/Japanese-literature
Período Kamakura (1192-1333)
O estado de guerra do século 12 concedeu poder incontestado a militares (samurais), em um novo regime baseado na disciplina marcial. Apesar dos samurais expressarem respeito à cultura ancestral, alguns deles até mesmo estudando a composição do tanka com os mestres de Kyōto, ainda assim a capital do país foi movida para Kamakura. A posição inferior das mulheres sob o governo feudal talvez explique a redução notável na importância dos escritos de damas da corte; de fato, dificilmente houve uma escritora distinta entre os séculos 13 e 19. Os poetas da corte, apesar disso, se mantiveram prolíficos; 15 antologias patrocinadas pelo imperador foram completas entre 1188 e 1439, e a maioria dos tanka seguiram os estereótipos estabelecidos nos períodos literários anteriores.
A mais bem trabalhada das antologias posteriores, o Shin kokinshū (ano 1205) foi compilada por Fujiwara Sadaie, ou Teika, entre outros, e é considerada por muitos como a conquista suprema da composição tanka. O título da antologia — "o novo Kokinshū" — indica a confiança dos compiladores de que os poetas representados eram sucessores dignos daqueles na coleção de 905; eles incluíram (além do próprio grande Teika) o pai de Teika, Fujiwara Toshinari (Fujiwara Shunzei); o sacerdote Saigyō; e o ex-imperador Go-Toba. Esses poetas buscavam significados simbólicos para além do mundo visível. As cores brilhantes de paisagens repletas de flores ou folhas avermelhadas deram espaço a pinturas monocromáticas; o poeta, ao invés de focar no prazer ou melancolia de uma experiência, procurava nela um significado mais profundo que ele poderia sentir, ou até mesmo expressar totalmente. Os gostos de Teika dominaram a sensibilidade poética japonesa, graças não somente à sua poesia e ensaios sobre poesia, mas também às suas escolhas de trabalhos do passado mais dignos de preservação.
Teika também é creditado com um romance, Matsura no miya monogatari ("O Conto do Santuário Matsura", tradução inglesa "The Tale of Matsura"). Ainda que inacabado e estranhamente construído, suas atmosferas irrealistas permanecem na mente com as conotações da poesia de Teika; sonhos do passado eram, de fato, os refúgios dos romancistas medievais, que modelaram sua linguagem no Genji monogatari, ainda que agora fosse arcaico, e pegaram emprestado seus temas e personagens das obras primas do período Heian. Histórias sobre madrastas malvadas são relativamente comuns; talvez os escritores, contrastando sua negligência com as vidas fabulosas da corte de Heian, identificavam a si mesmos com as enteadas maltratadas e o típico final feliz dessas histórias — a enteada em Sumiyoshi monogatari é casada com um poderoso político e sua madrasta maligna é humilhada — deve ter sido o cumprimento tão desejado de suas próprias esperanças.
Vários diários descrevem viagens entre Kyōto e a capital do xogum em Kamakura. Membros da corte frequentemente fazem essa longa jornada na intenção de defender suas reivindicações em ações judiciais, e então relataram suas impressões pelo caminho na típica mistura de prosa e poesia. O Izayoi nikki ("Diário da Lua Minguante"; tradução inglesa em "Translations from Early Japanese Literature") fala sobre uma jornada feita em 1277 pela monja Abutsu. Um trabalho autobiográfico posterior que também contém descrições extensas de viagens é o magnífico Towazu-gatari (ano 1307; "Uma História que Ninguém Pediu"; tradução inglesa "The Confessions of Lady Nijō") pela Dama Nijō, uma obra (descoberta apenas em 1940) que providencia um momento final de glória à longa tradição da escrita introspectiva por mulheres na corte.
Apesar desses escritos no estilo aristocrático terem preservado muito do estilo de literatura Heian, trabalhos de diferentes caráteres se tornaram ainda mais proeminentes no período medieval. Existem muitas coleções de contos budistas e populares, no qual o mais agradável é o Uji shūi monogatari (Uma Coleção de Contos de Uji), uma coleção feita durante anos possuindo cerca de 197 histórias. Apesar dos incidentes descritos nesses contos serem constantemente similares àqueles presentes no Konjaku monogatari, eles são descritos com habilidade literária consideravelmente maior.
Um gênero literário ainda mais distinto do período é o gunki monogatari, ou contos de guerra. O mais famoso, Heike monogatari (O Conto do Heike), aparentemente havia sido escrito primeiro na corte por volta de 1220, provavelmente por um nobre que adquiriu seus materiais de relatos recitados por sacerdotes sobre o estado de guerra entre as famílias Taira (Heike) e Minamoto (Genji) nos séculos anteriores. O célebre trecho de abertura da obra, uma declaração da impermanência de todas as coisas, também declara o assunto principal, a ascenção e queda da família Taira. O texto, inicialmente dividido em 3 livros, foi expandido para 12 ao longo do tempo como resultado de ter sido recitado com improvisos por sacerdotes-performancistas. Essa transmissão oral pode explicar não somente a quantidade incomum de variações textuais, mas também pelo estilo excepcionalmente musical e dramático da obra. Diferente dos romancistas de Heian, que raramente admitiam palavras de origem chinesa em suas obras, os narradores do Heike monogatari empregaram os sons contrastantes de palavras importadas para produzir o que foi aclamado como o grande clássico do estilo japonês. Embora a obra seja curiosamente irregular, com cenas expressivas seguidas de passagens tediosas em que o narrador parece reforçar a precisão histórica dos seus materiais, o texto pelo menos é intermitentemente magnífico, e providencia personagens e incidentes para os trabalhos de muitos romancistas e dramaturgos posteriores.
O Heike monogatari não foi de forma alguma o texto literário mais antigo que descreve a guerra, e outros escritos, com conteúdos majoritariamente históricos, floresceram de forma incomum se comparados a trabalhos similares do Ocidente. Ōkagami (ano 1120?; "O Grande Espelho"; tradução inglesa Ōkagami), o mais famoso dos "espelhos" da história japonesa, sem dúvidas influenciou a composição do Heike monogatari, especialmente em seu tom moralista. O Hōgen monogatari (tradução inglesa Hōgen monogatari) e o Heiji monogatari (tradução inglesa parcial em "Translations from Early Japanese Literature") relatam a guerra que antecede os eventos descritos no Heike monogatari, mas foram provavelmente escritos um pouco mais tarde.
Contos de guerra continuaram a ser compostos por todo o período medieval. O Taiheiki ("Crônica da Grande Paz"; tradução inglesa Taiheiki), por exemplo, abrange cerca de 50 anos, começando em 1318, quando o imperador Go-Daigo ascendeu ao trono. Apesar de reverenciado como um clássico por gerações de japoneses, o texto possui relativamente pouco apelo para leitores ocidentais, sem dúvidas porque tão poucas das retratações ganham vida.
Personagem são mais vividamente descritos em dois romances históricos da metade ao fim do século 14: Soga monogatari, um relato do sentimento de vingança carrecado pelos irmãos Soga, e Gikeiki ("Crônica de Gikei; tradução inglesa Yoshitsune), descrevendo a vida do guerreiro Minamoto Yoshitsune. Apesar de tão pouco artísticos, esses retratos de heróis engenhosos e ousados capturavam as imaginações dos japoneses, e seus feitos ainda são proeminentes no teatro Kabuki.
Outra variedade importante de literatura medieval foram os ensaios reflexivos de sacerdotes budistas. Hōjō-ki (1212; A Cabana de Dez Pés Quadrados) por Kamo Chōmei é a descrição de um eremita sobre suas desilusões com o mundo e sua descoberta da paz em um retiro solitário. A beleza elegíaca da sua linguagem concede a esse trabalho, apesar de breve, a dignidade de um clássico. Chōmei também era um poeta notável, e seu ensaio Mumyōshō (anos 1210-12; "Anotações Sem Nome") é, talvez, o melhor exemplo de crítica poética tradicional japonesa.
Um sacerdote posterior, Yoshida Kenkō, escrevendo durante os dias de guerra e inquietação que trouxeram o fim ao xogunato de Kamakura em 1333, a breve restauração da autoridade imperial sob o imperador Go-Daigo de 1333 a 1335, e a instituição do xogunato Ashikaga em 1338, dá muito pouco a entender sobre o tumulto da época em sua obra prima Tsurezuregusa (ano 1330; "Ensaios sobre a Ociosidade"); ao invés disso, ele olhava com nostalgia para os dias felizes do passado. Os julgamentos estéticos de Kenkō, frequentemente baseados em uma consciência mundana bastante surpreendente em um sacerdote budista, circulou amplamente, especialmente no século 17, quando Tsurezuregusa foi muito lido.
Os períodos Muromachi (1338-1573) e Azuchi-Momoyama (1574-1600)
No século 15, uma forma poética de múltiplos autores substituiu o tanka como o meio preferido dos principais poetas. Renga (versos vinculados) começou como a composição de um único tanka por duas pessoas e foi popular no passado mesmo em áreas rurais. Uma pessoa poderia compor as primeiras três linhas de um tanka, muitas vezes dando detalhes obscuros ou contraditórios na intenção de dificultar para a segunda pessoa completar o poema de forma legível. Gradualmente, o renga se espalhou pelos poetas da corte, que viram as possibilidades artísticas dessa diversão e elaboraram "códigos" com a intenção de estabelecer o renga como arte. Esses códigos possibilitaram as obras primas do século 15, mas suas insistências em formalidades (por exemplo, quão frequentemente um "vínculo" sobre a lua poderia aparecer em 100 vínculos, e quais vínculos deviam terminar com um substantivo, quais com um verbo) inevitavelmente diluíram o vigor e o frescor dos primeiros renga, sendo ele próprio uma resposta à formalidade excessiva do tanka. No entanto, os renga do mestre do século 15, Sōgi e seus associados, são únicos em seus impulsos líricos inconstantes, seus movimentos de vínculo para vínculo como momentos sucessivos de uma paisagem vista de um barco, evitando qualquer ilusão de que a obra havia nascido da mente de uma única pessoa.
Enquanto de interesse histórico considerável, as curtas histórias dos séculos 15 e 16, comumente conhecidas como otogi-zōshi, não podem ser consideradas de grande valor literário. Alguns olham para o mundo passado da corte de Heian; outros contém recursos folclóricos ou elementos sobre milagres que devem ter sido incluídos para interessar os leitores pouco letrados. Histórias promissoras são às vezes arruinadas por absurdos antes mesmo de começarem, mas até mesmo as histórias menos bem sucedidas providenciam vislumbres valiosos de uma sociedade que, ainda que afligida pela guerra, apreciava a possibilidade de mudanças. As histórias são anônimas, mas os autores parecem ter sido tanto membros da corte quanto sacerdotes budistas.
Sem dúvidas os trabalhos literários mais bem trabalhados do século 15 são os teatros Noh, especialmente aqueles por Zeami. Eles foram escritos com uma poesia magnífica (frequentemente comparados com "tecidos finos" por seus ricos padrões criados por muitas alusões de poesias do passado) e foram dotados de uma estrutura ao mesmo tempo extremamente econômica e livre. Muitos se preocupam com o pecado budista do apego: sua incapacidade de esquecer sua vida nesse mundo impede um defundo de se libertar, o forçando a retornar de novo e de novo como um fantasma e reviver a violência ou as paixões da sua existência prévia. Apenas oração e renúncia pode trazer a libertação. Os tratados de Zeami sobre a arte do Noh exibe uma percepção extraordinária. Os objetivos declarados por ele eram convicção dramática e realismo, mas esses ideais significavam os objetivos finais para ele, não realismo superficial. Algumas peças Noh, de fato, possuem pouco conteúdo simbólico ou sobrenatural. Mas, em um típico programa de cinco peças Noh, os elementos centrais são as obras primas altamente poéticas e elusivas que sugerem um mundo que é invisível aos olhos mas podem ser evocados por atores através da beleza dos movimentos e discursos. Infelicidade acerca de um mundo despedaçado pela desordem pode ter levado escritores a sugerir, em suas obras, verdades que são profundas demais para serem descritas com palavras. Esse parece ter sido o significado do yūgen ("mistério e profundidade"), o ideal das peças Noh. Desenvolvimentos paralelos ocorriam na cerimônia do chá, paisagismo de jardim e pinturas monocromáticas, todas essas sendo artes que sugerem e simbolizam ao invés de afirmar.
Comentários
Postar um comentário