Literatura Japonesa (parte 5) - Literatura durante o período Tokugawa (1603-1867)

 Literatura durante o período Tokugawa (1603-1867)

A restauração da paz e a unificação do Japão foram alcançadas no começo do século 17 e por aproximadamente 250 anos os japoneses viveram um período ininterrupto de paz. Durante a primeira metade do período Tokugawa, as cidades de Kyōto e Ōsaka dominaram a atividade cultural mas, por volta de 1770, o Edo (a Tóquio atual) se tornou proeminente. De 1630 até o começo de 1850, o Japão estava fechado, por decreto do governo, do contato com o mundo exterior. Inicialmente, o isolamento encorajou o desenvolvimento de formas nativas de literatura mas, eventualmente, na ausência de influências externas frutíferas, resultou em uma escrita provincial.  A adoção da prensa no começo do século 17 fez com que a literatura popular fosse possível. Os japoneses conheciam a arte da impressão desde por volta do século 8, mas eles a reservaram exclusivamente para reproduzir escrituras budistas. Os clássicos japoneses existiram apenas em forma manuscrita. É possível que a demanda por cópias de obras literárias fosse tão pequena que poderia ser satisfeita por manuscritos, por mais caros que fossem; ou, talvez, considerações estéticas fizeram os japoneses preferirem manuscritos com uma bela caligrafia, às vezes até embelezados com ilustrações. Qualquer que fosse o caso, trabalhos não-religiosos não foram impressos até 1591. Por volta da mesma época, missionários portugueses em Nagasaki imprimiam livros no alfabeto romano. Em 1593, no decorrer da invasão japonesa à Coréia, uma prensa com caracteres móveis foi enviada como presente ao imperador Go-Yōzei. A impressão logo se tornou o hobby ou extravagância dos ricos e muitos exemplos de literatura japonesa começaram a aparecer em pequenas edições. Publicações comerciais começaram em 1609; por volta de 1620, mesmo trabalhos com pouco valor literário estavam sendo imprimidos para um público ansioso por novos livros.

Começo do período Tokugawa (1603- 1770)

A poesia passou por muitas mudanças durante o começo do período Tokugawa. Em um primeiro momento, os poetas da corte mantiveram com zelo seu monopólio sobre o tanka, mas gradualmente outros homens, muitos sendo kokugakusha ("estudiosos de aprendizado nacional") mudaram o curso da composição do tanka tentando restaurar a força simples do Man’yōshū. O melhor dos poetas waka na tradição da corte era Kagawa Kageki, um poeta de habilidades excepcionais, apesar de ele ser menos provável de deixar uma boa impressão em leitores modernos do que os inconvencionais Ōkuma Kotomichi ou Tachibana Akemi, ambos os quais morreram em 1868, durante o primeiro ano da era Meiji.

O principal desenvolvimento da poesia durante o xogunato Tokugawa era o aparecimento do haiku como um gênero importante. Essa forma extremamente curta (17 sílabas arranjadas em linhas de 5, 7 e 5 sílabas) originou-se no hokku, ou versos de abertura de uma sequência renga, que devia conter em suas três linhas menções sobre a estação do ano, o horário do dia e as características predominantes da paisagem, e assim vai, o tornando quase um poema independente. O hokku ficou conhecido como haiku mais tarde, no século 19, quando já estava totalmente ausente da sua função original como abertura de uma sequência de versos, mas ainda hoje os hokku do século 17 são comumente chamados de haiku.

Anteriormente, no século 16, o haikai no renga ou "renga cômico" era composto como forma de diversão depois de uma tarde de composição séria de renga, voltando ao propósito social original, ao invés de literário, de fazer versos vinculados. Porém, como muitas vezes já havia acontecido no Japão, uma nova arte, nascida como uma reação às práticas estupidificantes de uma arte antiga, foi "descoberta", codificada e feita respeitável pelos praticantes da arte antiga, geralmente às custas do seu frescor e vitalidade. Matsunaga Teitoku, um convencional poeta de tanka e renga do século 17 que reverenciava as antigas tradições, independente disso, se tornou o mentor do novo movimento de versos cômicos, principalmente como resultado da pressão dos seus alunos ansiosos. Teitoku trouxe dignidade ao renga cômico e o tornou um trabalho exigente, ao invés de uma piada momentânea. Seu haikai era distinguível de rengas sérios, não por conta da sua concepção cômica, mas pela presença do haigon — uma palavra de origem recente ou chinesa que normalmente não era tolerada nos versos clássicos.

Inevitavelmente, uma resposta surgiu contra o formalismo de Teitoku. Os poetas da escola Danrin, liderados por Nishiyama Sōin e Saikaku, insistiram que era inútil perder meses, se não anos, aperfeiçoando uma sequência de 100 versos. Seus ideais eram composições rápidas e improvisadas, e seus versos, geralmente de dicção coloquial, planejavam divertir por um breve momento ao invés de durar para sempre. Saikaku em especial se destacava em composições de sequências extensas feitas por um só homem; em 1684, ele compôs um total de incríveis 23,500 versos em um único dia e noite, tão rápido que os escribas não podiam fazer muito além de registrar.

O haiku foi aperfeiçoado em uma forma capaz de transmitir poesia da mais alta qualidade por Bashō. Depois de passar por um discipulado tanto na escola de Teitoku quanto de Danrin, Bashō fundou a sua própria escola e insistiu que o haiku devia conter a percepção de uma verdade eterna, mas também um elemento da contemporaneidade, combinando os aspectos característicos das duas escolas anteriores. Apesar da sua abrangência breve, o haiku de Bashō muitas vezes sugere, através dos poucos elementos essenciais que apresenta, o mundo inteiro do qual eles haviam sido extraídos; o leitor deve participar da criação do poema. As obras mais bem conhecidas de Bashō são relatos de viagens intercaladas com seus versos; dessas, Oku no hosomichi (1694; A Estrada Estreita Através do Norte Longínquo) é, talvez, a mais popular e reverenciada obra da literatura Tokugawa.

O nome geral da prosa composta entre 1600 e 1682 é kana-zōshi, ou "livros kana", um nome originalmente utilizado para distinguir textos populares escritos no silabário japonês de obras mais conhecidas em chinês. O gênero abrangeu não apenas ficção mas também trabalhos de uma natureza quase histórica, folhetos religiosos, livros de informações práticas, guias, avaliações de cortesãs e atores, e ensaios diversos. Apenas um escritor distinto é associado com o kana-zōshi — Asai Ryōi, um samurai que se tornou o primeiro escritor popular e profissional da história do Japão. Graças ao desenvolvimento de métodos relativamente baratos de impressão e um aumento acentuado do público leitor, Ryōi foi capaz de viver como escritor. Apesar de alguns dos seus trabalhos serem budistas, ele escreveu em um estilo simples, principalmente em kana. Seu romance mais famoso, Ukiyo monogatari (ano 1661; "Contos de um Mundo Flutuante"), é simples tanto em técnica quanto em enredo, mas abaixo da sua máscara de futilidade, Ryōi tentou tratar as dificuldades de uma sociedade onde a oficialmente proclamada filosofia confucionista ocultava desigualdades grosseiras.

O primeiro romancista importante desse novo período era Saikaku. Alguns críticos japoneses o classificaram em segundo, abaixo apenas de Murasaki Shikibu, autora do Conto de Genji, em toda a literatura japonesa, e seus trabalhos foram editados com o cuidado concedido apenas aos grandes clássicos. Tal atenção certamente teria surpreendido Saikaku, cujo a ficção foi composta quase tão rápido quanto suas performances lendárias de renga cômico, com pouca preocupação quanto aos julgamentos posteriores. Seu primeiro romance, Kōshoku ichidai otoko (1682; A Vida de um Homem Amoroso), mudou o curso da ficção japonesa. O próprio título possuía fortes conotações eróticas, e o enredo descrevia as aventuras de um homem, desde suas divagações eróticas sobre como fazer amor quando era apenas uma criança de sete anos, até sua decisão aos 60 de viajar para uma ilha povoada apenas por mulheres. Os alojamentos licenciados de prostituição estabelecidos em várias cidades do Japão pelo governo Tokugawa (apesar das suas profissões da moralidade Confucionista), na intenção de ajudar a controlar samurais indisciplinados dissipando suas energias, se tornou o centro da nova cultura. Proficiência nos costumes dos bordéis era considerado a marca do homem mundano. O antigo termo ukiyo, que inicialmente significava "mundo triste" nas histórias budistas, agora passou a designar seu homônimo, o "mundo flutuante" do prazer; esse foi o mundo escolhido pelo herói de Saikaku, Yonosuke, que se tornou uma figura emblemática do período.

A obra prima de Saikaku, Kōshoku gonin onna (1686; Cinco Mulheres que Amaram o Amor), descrevia o amor de mulheres da classe mercadora, ao invés de prostitutas; essa era a primeira vez que mulheres dessa classe recebiam tanta atenção. Em outros trabalhos ele descrevia, às vezes com humor mas às vezes com amargura, as batalhas dos mercadores em fazer fortuna. Sua combinação de um estilo cintilante com uma simpatia calorosa pelos personagens elevou seus contos dos limites da pornografia para arte de ponta.

Saikaku foi uma figura central no renascimento da literatura no fim do século 17. O nome Genroku (o nome de uma era designando o período entre 1688-1704) é frequentemente usado nos produtos artísticos característicos: pinturas e impressões do estilo ukiyo-e ("retratos do mundo flutuante"); ukiyo-zōshi ("contos do mundo flutuante"); Kabuki; jōruri, ou teatro de bonecos; e a poesia haiku. Diferente dos seus antecedentes, essa cultura recompensava modernidade acima de conformidade às antigas tradições; estar a par do mundo flutuante era estar atualizado, conhecendo as últimas tendências e gírias, gozando o momento ao invés das verdades eternas das obras Noh ou poesia medieval.

Outro lado mais obscuro da cultura Genroku é descrito nos trabalhos posteriores de Saikaku, com suas descrições sobre os expedientes desesperados que as pessoas faziam na intenção de pagar suas contas. O Saikaku raramente mostrava simpatia pelas prostitutas que ele descrevia, mas o principal dramaturgo da época, Chikamatsu Monzaemon, escreveu suas melhores obras sobre mulheres infelizes, movidas pela pobreza a viver como prostitutas, cujo único livramento do mundo sórdido ao qual foram condenadas a viver era quando se uniam aos seus amantes para a prática de suicídio em dupla. No mundo dos mercadores tratado por Chikamatsu, a falta de dinheiro, ao invés da melancolia cósmica das peças Noh, levava o homem à morte com as prostitutas que eles amavam mas não tinham dinheiro para comprar.

Chikamatsu escreveu a maioria das suas peças para o teatro de bonecos, no qual, no século 18, possuía ainda maior popularidade do que o Kabuki. Suas peças caíam em duas principais categorias: aquelas baseadas, mesmo que vagamente, em fatos históricos ou lendas, e aquelas tratando de vidas contemporâneas. As peças domésticas eram muito mais aclamadas pela crítica pois evitavam as bombásticas e fantasiosas demonstrações de heroísmo que marcavam dramas históricos que, por sua vez, adaptados para o teatro Kabuki, são magníficos meios de atuação.

A base do teatro de bonecos era escrita não por Chikamatsu, mas por seus sucessores; suas obras, apesar da superioridade literária, falhou em satisfazer as audiências sedentas por demonstrações de técnicas com bonecos e por representações extremas de lealdade, sacrifício pessoal e outras virtudes da sociedade. A peça de bonecos mais popular (mais tarde adaptada para atores de Kabuki) era Chūshingura (1748; "O Tesouro dos Retentores Leais"; tradução inglesa Chūshingura) por Takeda Izumo e seus colaboradores; os mesmos homens foram responsáveis por meia dúzia de outras eternamente aclamadas peças japonesas. O último grande escritor de peças de bonecos do século 18, Chikamatsu Hanji, era um mestre de enredos altamente dramáticos, ao ponto de serem inverossímeis.

Fim do período Tokugawa (ano 1770–1867)

A literatura do fim do período Tokugawa é geralmente inferior às conquistas anteriores, especialmente àquelas dos mestres Genroku. Novas vozes autênticas, porém, foram ouvidas nas formas poéticas tradicionais. Poetas neo-Man’yōshū posteriores como Ryōkan, Ōkuma Kotomichi e Tachibana Akemi provaram que o tanka não era limitado a descrições de paisagens naturais ou amores decepcionados, mas poderiam expressar a felicidade de se ter peixe para o jantar ou a fúria sobre eventos políticos. Alguns poetas que sentiram que o tanka não providenciava um amplo escopo para exibir essas emoções, assim como no passado, se voltaram à escrita em chinês. O poeta do começo do século 19 Rai Sanyō provavelmente escreveu versos em chinês mais habilmente do que qualquer japonês antes dele.

Poetas do fim do período Tokugawa também adicionaram seus próprios toques distintos ao haiku. Buson, por exemplo, introduziu um elemento romântico e narrativo, e Issa empregou os sotaques das pessoas comuns.

Uma grande variedade de ficção foi produzida durante o último século do xogunato Tokugawa, mas são comumente agrupadas sob o título depreciativo de gesaku ("composição brincalhona"). A palavra "brincalhona" não necessariamente se refere ao assunto tratado, mas à atitude tomada pelos autores, homens educados que negavam a responsabilidade por suas composições. Ueda Akinari, o último mestre da ficção do século 18, recebeu um alto prestígio na história da literatura principalmente por conta do seu estilo brilhante, mostrado com mais clareza no Ugetsu monogatari (1776; Contos da Luz da Lua e da Chuva), uma coleção de contos sobrenaturais. Os escritores gesaku, porém, não seguiram Akinari em sua atenção perfeccionista ao estilo e construção; ao invés disso, muitos produziram livros que beiravam a fofoca sem forma, substituindo o atrevimento do discurso cotidiano pela elegância da linguagem clássica e se baseando profundamente em ilustrações abundantes para o sucesso com o público.

Os escritores gesaku eram profissionais que sobreviviam com as vendas dos seus livros. Eles visavam o público mais abrangente possível e, quando um livros era bem sucedido, era normalmente seguido pelo máximo de sequências que o público pudesse aceitar. A mais popular da variedade cômica da ficção gesaku era Tōkai dōchū hizakurige (1802-22; "Viagens a Pé no Tōkaidō"; tradução inglesa Shank's Mare), por Jippensha Ikku, um relato sobre as viagens e infortúnios cômicos de dois homens irrepreensíveis do Edo ao longo do Tōkaidō, a estrada mais longa entre Kyōto e Edo. Shunshoku umegoyomi (1832-33; "Cores da Primavera: O Calendário da Ameixa"), por Tamenaga Shunsui, é a história de Tanjirō, um jovem belo sem igual, porém inutil, cujo as mulheres brigavam por seu afeto. O autor, em certo ponto, se defendeu das acusações de imoralidade: "Mesmo que as mulheres que eu retrate possam parecer imorais, elas são imbuídas com profundos sentimentos de castidade e fidelidade". Era uma prática padrão dos escritores gesaku, não importando o quão frívolos suas composições fossem, fingir que suas intenções fossem didáticas.

Os yomihon ("livros para leitura" — chamados assim para distingui-los de obras apreciadas principalmente por suas ilustrações) eram muito mais abertamente moralistas. Apesar de serem considerados gesaku, assim como os livros mais triviais de fofocas, seus enredos eram carregados de materiais históricos retirados de fontes chinesas e japonesas, e seus autores frequentemente acentuavam seus propósitos didáticos. Apesar do objetivo sério do yomihon, eles eram mais romances do que novelas, e seus personagens, altamente esquematizados, incluíam bruxas e princesas fadas assim como nobres cavalheiros impecáveis. Onde eles foram bem sucedidos, como em alguns poucos trabalhos de Takizawa Bakin, eles eram mais atrativos como exemplos de narrativas do que como ilustrações de princípios do kanzen chōaku ("o encorajamento da virtude e o castigo do vício"), o objetivo declarado de Bakin na ficção escrita.

A literatura japonesa, em geral, estava em um dos seus piores momentos no fim do período Tokugawa. O dramaturgo de Kabuki Kawatake Mokuami, assim como alguns poetas do tanka, são os únicos escritores do período no qual os trabalhos ainda são lidos hoje em dia. Foi uma literatura desgastada que só poderia ser revivida pela introdução de novas influências do exterior.


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