Literatura Japonesa (parte 3) - Literatura clássica: período Heian (794-1185)

Essa é uma tradução do artigo "Japanese Literature" no site da Encyclopedia Britannica, traduzida do inglês para o português brasileiro.

Fonte original: https://www.britannica.com/art/Japanese-literature

Literatura clássica: Período Heian (794–1185)

A fundação da cidade de Heian-kyō (posteriormente conhecida como Kyōto) como a capital do Japão marcou o começo de um período de grande brilhantismo literário. Os escritos mais antigos do período, porém, eram quase todos em chinês por conta do desejo frequente de emular a cultura do continente. Três antologias de poesia chinesa patrocinadas pelo imperador surgiram entre 814 e 827 e, por um tempo, parecia que escrever em japonês seria rebaixado para uma posição extremamente menor. O mais notável escritor de verso chinês, o poeta do século 9 Sugawara Michizane, concedeu um brilho final a esse período de aprendizado do chinês devido à sua erudição e dons poéticos, mas sua recusa de ir à China quando foi oferecido um posto como embaixador, defendendo que a China já não tinha mais nada para ensinar ao Japão, marcou a mudança na resposta à influência chinesa.

Poesia

A invenção do silabário fonético kana, tradicionalmente atribuído a Kūkai, um célebre sacerdote Shingon do século 9 e estudioso do Sânscrito, facilitou grandemente a escrita em japonês. Coleções particulares de poesia em kana começaram a ser compiladas por volta de 880, e em 905, o Kokinshū ("Coleção de Poemas Anciões e Modernos), a primeira grande obra da literatura com kana, foi compilada pelo poeta Ki Tsurayuki e outros. Essa antologia continha 1,111 poemas divididos em 20 livros organizados por tópicos, incluindo 6 livros de poemas sazonais, 5 livros de poemas de amor, e um único livro dedicado a assuntos como viagens, luto e congratulações. Os dois prefácios se devem claramente às teorias de poesia descritas pelos compiladores de antologias chinesas como o Shijing ("Clássico da Poesia") e Wen xuan ("Seleções de Literatura Refinada"), mas as preferências que eles expressavam seria compartilhada pela maioria dos poetas de tanka pelos próximos 1000 anos. O prefácio por Tsurayuki, a obra mais antiga de prosa contínua em kana, enumerou as circunstâncias que movem o homem a escrever poesia; ele acreditava que a melancolia, seja causada pela mudança da estações ou pelo vislumbre de cabelos brancos refletidos em um espelho, providenciava um humor mais agradável para escrever poesia do que as emoções mais severas tratadas na antologia anterior, pré-kana, o Man’yōshū. Os melhores tanka no Kokinshū cativam o leitor pelas suas percepções e belezas tonais, mas esses textos curtos perfeitamente torneados carecem da variedade do Man’yōshū.

Proficiência em compor tanka se tornou uma vantagem em ganhar a preferência da corte; também era essencial a um amante, cujas mensagens à sua senhora (que provavelmente não conseguia ler em chinês, linguagem ainda usada por homens em documentos oficiais) frequentemente consistiam em poemas descrevendo suas próprias emoções ou implorando pelas graças da amada. Nesse período, o tanka quase destitui completamente o chōka, no qual o comprimento era indefinido, porque os tanka, sendo mais curtos, eram mais adequados aos bilhetes sutis dos amantes ou às competições com temas determinados.

Para os poetas do Kokinshū e antologias posteriores da corte, originalidade era menos desejável do que perfeição na linguagem e no tom. Os críticos, longe de elogiar novidades nos efeitos, condenavam desvios da dicção poética padrão — que havia sido estabelecida pelo Kokinshū e consistia cerca de 2,000 palavras — e insistiam na aderência absoluta aos códigos poéticos formulados inicialmente no século 10. Por mais que essas restrições tivessem salvo a poesia japonesa de deslizes para o mal gosto ou vulgaridades, elas estagnaram a poesia em determinados modos de expressão por séculos. Apenas um crítico habilidoso pode distinguir um tanka típico do século 10 de um do século 18. O Kokinshū estabeleceu os precedentes para futuras antologias da corte, e conhecer seu conteúdo era indispensável para todos os poetas como guia e fonte de alusões literárias.

Poemas de amor ocupam um lugar proeminente no Kokinshū, mas as alegrias do amor são raramente celebradas; ao invés disso, os poetas escrevem nos moldes melancólicos descritos no prefácio, descrevendo as incertezas antes do encontro com a amada, a dor da despedida, ou a triste realização de que uma relação acabou. A perfeição invariável da dicção, imaculada de qualquer choro inconveniente do coração, pode às vezes fazer alguém duvidar da sinceridade do poeta. Isso não é verdade para os grandes poetas do Kokinshū do século 9 — Ono Komachi, Senhorita Ise, Ariwara Narihira e o próprio Tsurayuki — mas até sacerdotes budistas, que presumivelmente haviam renunciado o amor carnal, escreveram poesias de amor em competições da corte, e é difícil detectar qualquer dirença entre aqueles poemas e os de amantes reais.

O prefácio do Kokinshū lista críticas aos principais poetas da coleção. Esse criticismo é insatisfatório para um leitor moderno por ser tão abrupto e pouco analítico, mas de qualquer forma marca o começo da crítica poética japonesa, uma arte que se desenvolveu de forma impressionante durante o curso do período Heian.

Prosa

Ki Tsurayuki é celebrado também por seu Tosa nikki (936; O Diário de Tosa), o relato de sua jornada de regresso para Kyōto da província de Tosa, onde ele serviu como governador. Tsurayuki escreveu esse diário em japonês, apesar dos homens da época normalmente manterem seus diários em chinês; isso pode explicar porque ele fingiu que uma mulher da comitiva do governo foi sua autora. Eventos da jornada são intercalados com poemas compostos em várias ocasiões. A obra é comovente especialmente por conta das repetidas, porém silenciosas, referências à morte da filha de Tsurayuki em Tosa.

Tosa nikki é o exemplo mais antigo de diário literário. A maioria dos escritores de diários do período Heian que escreviam na língua japonesa eram damas da corte; seus escritos incluem algumas das obras primas supremas da literatura. Kagerō nikki (Os Anos na Teia) descrevem a vida entre 954 e 974 da segunda esposa de Fujiwara Kaneie, um proeminente oficial da corte. O primeiro volume, narrado muito tempo depois dos eventos, é construído como um romance autobiográfico; até a autora confessa que suas memórias provavelmente estão tingidas com ficção. Os dois volumes seguintes são mais semelhantes a um diário real, com alguns registros aparentemente feitos nos dias indicados. A escritora (conhecida apenas como "a mãe de Michitsuna") descreve, com muitos toques de auto-piedade, sua vida infeliz com seu marido. Ela evidentemente assumiu que os leitores iriam simpatizar e muitas vezes esse é o caso, apesar das suas reclamações egocêntricas não serem cativantes. Em uma passagem, em que ela regozija a morte da criança de uma rival, sua obsessão com seus próprios lamentos causam uma má impressão. Ainda assim, seu diário é incrivelmente comovente justamente porque a autora retrata apenas emoções universalmente reconhecíveis e omite os detalhes da vida na corte, que era o foco dos homens.

Outros diários do período incluem o curioso Murasaki Shikibu nikki ("O Diário de Murasaki Shikibu"; tradução inglesa Murasaki Shikibu: Her Diary and Poetic Memoirs), simultaneamente uma obra literária imersiva e uma fonte de informação sobre a corte, que a autora (Murasaki Shikibu) descreveu mais romanticamente em sua obra prima Genji monogatari (ano de 1010; O Conto de Genji) e em Izumi Shikibu nikki (O Diário de Izumi Shikibu), que é mais uma história curta deliberadamente ornamentada com poesia do que um diário.

Esses "diários" são intimamente relacionados em conteúdo e forma ao uta monogatari ("contos poéticos") que emergiu como um gênero literário mais tarde, no século 10. Ise monogatari (ano 980; O Conto de Ise) consiste em 143 episódios, cada um contendo um ou mais poemas e uma explicação em prosa das circunstâncias de suas composições. A brevidade e muitas vezes a ambiguidade do tanka deu origem à necessidade dessas explicações, e quando essas explicações se tornaram extensas ou (como é o caso de Ise monogatari) foram interpretadas como informações biográficas sobre o poeta (Ariwara Narihira), elas se aproximaram da esfera da ficção.

Junto com os contos poéticos, haviam trabalhos de inspiração religiosa ou fantasiosa desde o Nihon ryōiki (822; Histórias Milagrosas da Tradição Budista Japonesa), um relato dos milagres budistas no Japão compilados pelo sacerdote Kyōkai. Sacerdotes provavelmente usavam essas histórias, escritas em chinês, como uma fonte de sermões com a intenção de persuadir japoneses comuns, incapazes de ler trabalhos complicados de teologia, de que eles deveriam levar vidas virtuosas se não quisessem sofrer no inferno pelos seus delitos presentes. Nenhuma dessas intenções didáticas são notáveis no Taketori monogatari (século 10; Conto do Cortador de Bambu), um conto de fadas sobre uma princesa que vem da Lua para viver na Terra na casa de um humilde cortador de bambu; os vários testes que ela impõe aos seus pretendentes, ainda que fantásticos, são descritos com humor e realismo.

O primeiro trabalho extenso da ficção em japonês, Utsubo monogatari ("O Conto da Árvore Oca"), aparentemente foi escrito entre 970 e 983, apesar de que o último capítulo pode ter sido escrito mais tarde. Esse trabalho irregular e mal processado é interessante principalmente por ser um amálgama de elementos dos contos poéticos e contos de fadas; contém 986 tanka, e seus episódios abrangem inicialmente do realismo à fantasia pura.

O contraste entre esse trabalho imperfeito e o sublime Genji monogatari é esmagador. O Genji monogatari é a obra mais bem trabalhada não apenas do período Heian, mas também de toda a literatura japonesa, e merece ser titulado como o primeiro romance importante escrito no mundo inteiro. O Genji monogatari foi nomeado uma obra de mono no aware ("uma sensibilidade às coisas") pelo grande erudito literário do século 18, Motoori Norinaga; o herói, Príncipe Genji, não é notável por suas capacidade marciais ou seus talentos como político mas como um amante incomparável, sensível a cada uma das várias mulheres que ele conquista. A história é contada conforme as sucessivas mulheres que Genji se apaixona; cada uma delas evoca uma resposta diferente nesse homem maravilhosamente complexo. O último terço do romance, descrevendo o mundo após a morte de Genji, possui um tom mais obscuro e as figuras principais, apesar de continuarem impressionantes, parecem não mais do que fragmentos do inigualável Genji.

O sucesso de Genji monogatari foi imediato. A autora do comovente Sarashina nikki (metade do século 11; "Diário de Sarashina"; tradução inglesa "As I Crossed a Bridge of Dreams") descreve como, ainda menina, ansiava por visitar a capital para que pudesse ler a obra completa (que havia sido completa dez anos antes). Imitações e trabalhos derivados baseados no Genji monogatari, especialmente no último terço dele, continuaram a ser escritos por séculos, inibindo a ficção composta pela sociedade da corte.

Makura no sōshi (anos 1000; "O Livro de Travesseiro de Sei Shōnagon) é outra obra prima do período Heian que deve ser mencionada com o Genji monogatari. Críticos japoneses frequentemente distinguiram a sensibilidade do Genji monogatari e o okashi de Makura no sōshi. Sensibilidade significa compreensão das trágicas implicações de um momento ou gesto; okashi, por sua vez, são as conotações cômicas dos mesmos momentos e gestos.  A partida da amante ao amanhecer evocavam muitas passagens melancólicas no Genji monogatari, mas no Makura no sōshi, Sei Shōnagon notou com implacável exatidão a despedida desajeitada e ineficaz do amante e a irritação da sua donzela. A consciência de Murasaki Shikibu pode ser notada na literatura posterior — sensibilidade sempre marcou a escrita de qualquer autor na tradição aristocrática — mas o humor de Sei Shōnagon pertenceu apenas à corte de Heian.

A sociedade da corte de Heian ultrapassou seu auge na metade do século 11, mas não colapsou pelos próximos 100 anos. Mesmo depois do seu poder político ter sido usurpado pelos militares, a corte reteve seu prestígio como a fonte principal da cultura. Mas no século 12, trabalhos literários pertencentes a uma tradição um pouco diferente começaram a aparecer. O Konjaku monogatari (começo do século 12; "Coletânea de Narrativas em que o Agora É Passado"; parcialmente traduzido para o inglês como "Ages Ago" e "Tales of Times Now Past"), uma coletânea massiva de histórias religiosas e contos folclóricos retirados não apenas do interior japonês mas também de fontes indianas e chinesas, descreveu elementos da sociedade que nunca havia sido tratados nos romances da corte. Essas histórias, apesar de escritas grosseiramente, fornecem vislumbres de como as pessoas comuns falavam e agiam em uma era marcada pela guerra e por novos movimentos religiosos. A coleção de músicas populares Ryōjin hishō, compilados em 1179 pelo imperador Go-Shirakawa, sugere a vitalidade dessa cultura popular florescente mesmo enquanto a sociedade aristocrática estava ameaçada de destruição.

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