Literatura Japonesa (parte 2) - Origens

Essa é uma tradução do artigo "Japanese Literature" no site da Encyclopedia Britannica, traduzida do inglês para o português brasileiro.

Fonte original: https://www.britannica.com/art/Japanese-literature

Origens

O primeiro texto de literatura em japonês foi ocasionado por influência da China. Os japoneses ainda eram relativamente primitivos e não possuíam sistema de escrita quando, nos primeiros quatro séculos da Era Comum, o conhecimento da civilização chinesa gradualmente os alcançou. Eles rapidamente assimilaram muito dessa civilização e os escribas japoneses adotaram os caracteres chineses como sistema de escrita, por mais que um alfabeto (se houvesse algum disponível para eles) teria sido infinitamente mais adequado à língua japonesa. Os caracteres, inicialmente concebidos para representar palavras chinesas monossilábicas, necessitariam de muita criatividade para representarem a forma aglutinadora da língua japonesa. Os resultados finais foram caóticos, dando origem a um dos sistemas de escrita mais complicados já inventados. O uso dos caracteres chineses influenciaram grandemente as formas de expressão e levaram a uma associação entre a composição literária e a caligrafia que durou muitos séculos.

Primeiros textos

Os primeiros textos japoneses eram escritos em chinês porque ainda não haviam inventado nenhuma forma de transcrever os sons e as formas da gramática japonesa. A inscrição mais antiga conhecida, em uma espada que data por volta do ano 440 da Era Comum, já mostrava algumas modificações do uso normal do chinês na intenção de transcrever nomes e expressões japonesas. A forma mais precisa de escrever palavras em japonês era se utilizando dos caracteres chineses não pelos seus significados, mas pelos seus valores fonéticos, dando a cada caractere uma pronúncia aproximada àquelas usadas pelos próprios chineses. Nos trabalhos mais antigos conhecidos, o Kojiki (712; The Kojiki: Records of Ancient Matters) e o Nihon shoki, ou Nihon-gi (720; Chronicles of Japan from the Earliest Times to A.D. 697), mais de 120 músicas, algumas datando a aproximadamente o século 5 da Era Comum, são descritas com transcrição fonética, sem dúvidas porque os japoneses davam grande importância aos próprios sons. Nesses dois trabalhos, ambos oficialmente considerados "histórias" do Japão, muitas seções foram escritas inteiramente em chinês; mas partes do Kojiki foram compostas em uma mistura complicada de línguas que usavam os caracteres chineses às vezes por seu significado, às vezes por seus sons. 

Origem do tanka no Kojiki

O Kojiki, embora reverenciado como o documento mais antigo que trata sobre os mitos e a história do povo japonês, não era incluído nas coleções de literatura até o século 20. Os mitos descritos no Kojiki são ocasionalmente interessantes, mas as únicas partes realmente literárias da obra são suas músicas. As músicas mais antigas não possuíam uma forma métrica fixa; as linhas, consistindo de quantidades indeterminadas de sílabas, possuíam tamanhos irregulares, revelando uma falta de forma poética. Algumas músicas, porém, aparentemente foram retrabalhadas — talvez quando o manuscrito foi transcrito no século 8 — no que se tornou a forma clássica do verso japonês, o tanka (poema curto), consistindo em cinco linhas de cinco, sete, cinco, sete e sete sílabas. Várias técnicas poéticas empregadas nessas músicas, tais como o makura kotoba ("palavra travesseiro"), um tipo de epíteto fixo, se manteve como traço da poesia posterior.

Ao todo, cerca de 500 músicas primitivas foram preservadas em várias coleções. Muitas descreviam viagens e um fascínio por nomes de lugares, evidentes na apaixonada enumeração das montanhas, rios e cidades com seus epítetos mânticos, foi extensamente desenvolvido nos diretórios geográficos (fudoki) compilados no começo do século 8. Esses trabalhos, apenas às vezes de interesse literário, devotam uma atenção considerável às origens populares de diferentes nomes de lugares, assim como outras lendas locais.

A importância do Man’yōshū

Uma magnífica antologia de poesia, o Man’yōshū (compilado depois de 759; Coleção das Dez Mil Folhas), é a mais importante coleção literária do período Nara (710-784), apesar de incluir poesias escritas no século anterior, se não mais antigas ainda. Dos aproximados 4500 poemas, a maioria são tanka, no entanto, as obras-primas do Man’yōshū são os 260 chōka ("poemas longos"), abrangendo até 150 linhas em comprimento e construídas com linhas alternadas de cinco e sete sílabas seguidas por uma linha conclusiva de sete sílabas. A amplitude do chōka permitiu a poetas tratarem temas impossíveis dentro do compasso do tanka — seja a morte de uma esposa ou filho, a glória da família imperial, a descoberta de uma mina de ouro em uma província remota, ou as dificuldades do serviço militar.

O maior dos poetas do Man’yōshū, Kakinomoto Hitomaro, serviu como um poeta de honra no fim do século 7 e começo do século 8, acompanhando os soberanos em suas excursões e compondo odes de lamento para membros falecidos da família imperial. Estudiosos modernos sugeriram que o chōka pode ter se originado como exorcismos dos mortos, acalmando os fantasmas de pessoas recentemente falecidas ao recitar seus feitos e prometendo que elas nunca seriam esquecidas. Algumas das obras-primas de Hitomaro descrevem as glórias de príncipes e princesas de forma tão convincente que ele pode nunca ter percebido que esses textos transcendem qualquer diferença entre expressões de tristeza "públicas" e seus sentimentos pessoais. Os chōka de Hitomaro são únicos na poesia japonesa devido à sua esplêndida combinação de imagens, sintaxe e poder emocional. Seus tanka também exibem as qualidades memoráveis comumente associadas à poesia japonesa posterior.

O chōka frequentemente era concluído com um ou mais hanka ("envoi") que resumiam os pontos centrais do poema precedente. Os hanka escritos pelo poeta do século 8 Yamabe Akahito são tão perfeitamente concebidos que, às vezes, fazem os chōka que eles procedem parecem desnecessários; a maneira como esses poemas são concisos e evocativos, idênticos em forma ao tanka, é próxima aos ideais da poesia japonesa posterior. No entanto, as obras máximas do Man’yōshū são os chōka de Hitomaro, Ōtomo Tabito, Ōtomo Yakamochi (provavelmente o compilador chefe da antologia) e Yamanoue Okura. A qualidade mais marcante do Man’yōshū é a sua poderosa sinceridade de expressão. Os poetas certamente não eram compositores ingênuos maravilhados com as belezas da natureza, um retrato que frequentemente é pintado sobre eles por críticos sentimentais, mas suas emoções eram intensas e mais diretamente expressas do que na poesia posterior. O cadáver de um viajante desconhecido, ao invés do cair das flores de cerejeira, trazia a Hitomaro a consciência da incerteza da vida humana.

O Man’yōshū é excepcional na quantidade de poemas compostos fora da corte, seja por guardas de fronteira ou pessoas com ocupações humildes. Talvez alguns dos poemas tenham de fato sido escritos por membros da corte se passando por plebeus, mas o uso do dialeto e as imagens familiares contrastam com a dicção poética estrita imposta no século 10. A diversidade dos temas e formas poéticas também distinguem o Man’yōshū dos versos mais polidos, porém estreitos, das eras seguintes. No famoso Diálogo sobre a Pobreza, de Okura, dois homens — um pobre e um indigente — descrevem suas posses miseráveis, revelando preocupação acerca das condições sociais que não é retratada nos tanka clássicos. A visita de Okura à China no início do século 8, como membro de uma embaixada japonesa, pode explicar a influência chinesa em sua poesia. Seus poemas também são prefaciados em muitos casos por passagens em chinês relatando as circunstâncias dos poemas ou citando paralelos budistas.

O Man’yōshū foi transcrito em um sistema complicado, quase perverso, que usava os caracteres chineses arbitrariamente, às vezes por seu significado, às vezes por seu som. A falta de uma escrita adequada provavelmente inibiu a produção literária em japonês durante o período Nara. Porém, a importância crescente que um cortesão daria à poesia chinesa como meta da realização literária também pode ter interrompido o desenvolvimento da literatura japonesa depois do seu primeiro florescer no Man’yōshū.

Dezoito poetas do Man’yōshū são representados na coleção Kaifūsō (751), uma antologia de poesia em chinês composta por membros da corte. Esses poemas não são muito além de pastiches de ideias e imagens emprestadas diretamente da China; a composição dessa poesia reflete o enorme prestígio da civilização chinesa nessa época.


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