Literatura Japonesa (Parte 1) - Introdução

Essa é uma tradução do artigo "Japanese Literature" no site da Encyclopedia Britannica, traduzida do inglês para o português brasileiro.

Fonte original: https://www.britannica.com/art/Japanese-literature

Índice

- Introdução

- O apelo duradouro da literatura japonesa

Introdução

Literatura japonesa é o conjunto de obras escritas produzidas por autores japoneses em língua japonesa ou, no começo, em uma época em que o Japão ainda não tinha língua escrita, escritas na língua clássica chinesa.

Tanto em quantidade quanto em qualidade, a literatura japonesa é considerada uma das maiores literaturas do mundo, comparável em idade, riqueza e volume à literatura inglesa, apesar de seu desenvolvimento ter sido pouco similar. Os trabalhos que sobreviveram incluem uma tradição literária que se estende do século 7 EC até o presente; durante esse tempo, nunca houve uma "idade das trevas" sem produção literária. Não somente a poesia, o romance e o teatro possuem longas histórias no Japão, mas alguns gêneros literários não muito estimados em outros países — incluindo diários, relatos de viagens e livros de pensamentos variados — também são proeminentes. Uma quantidade considerável de textos escritos por japoneses na língua clássica chinesa, de muito maior volume e importância que textos comparáveis em latim escritos por ingleses, testificam a dívida literária do Japão com a China. Até mesmo os textos inteiramente em japonês apresentam uma variedade extraordinária de estilos, que não podem ser explicados meramente pela evolução natural da linguagem. Alguns estilos foram notoriamente influenciados pela importância do vocabulário e sintaxe chinesa, mas outros se desenvolveram em resposta às necessidades internas dos vários gêneros, seja a concisão do haiku (um poema de 17 sílabas) ou a força da recitação dramática.

O apelo duradouro da literatura japonesa

As dificuldades em ler a literatura japonesa não são exagero; mesmo um especialista de um período provavelmente terá dificuldade decifrando uma obra de outro período ou gênero. O estilo japonês sempre favoreceu a ambiguidade e as partículas necessárias para a fácil compreensão de uma sentença são frequentemente omitidas, dadas como desnecessárias ou específicas demais. Algumas vezes, a única pista para o sujeito ou objeto de uma sentença é o nível de polidez em que as palavras são expressas; por exemplo, o verbo mesu (que significa "comer", "vestir", "guiar uma carroça", etc.) designa uma ação realizada por uma pessoa estimada. Em muitos casos, compreensão imediata de uma simples sentença depende da familiaridade com o contexto de um período específico da história. O verbo miru, "ver", tinha sobreposições com "ter um caso com" ou até "casar" durante o período Heian nos séculos 10 e 11, quando homens geralmente só podiam ver mulheres após eles terem se tornado íntimos. O longo período de isolamento japonês nos séculos 17 e 18 também influenciou a literatura a se tornar provincial, ou compreensível apenas para pessoas que tivessem vivido sob o mesmo contexto; a frase "a fumaça subiu barulhenta" (kemuri tachisawagite), por exemplo, fez com que leitores do fim do século 17 precisassem perceber que o autor estava se referindo ao Grande Incêncio de 1682 que devastou a capital do Xogum, a cidade de Edo (a atual Tóquio).

Apesar das grandes dificuldades que surgiam dessa idiossincrasia estilística, a literatura japonesa de todos os períodos é excepcionalmente atrativa aos leitores modernos, seja lida no texto original ou em uma tradução. Por ser predominantemente subjetiva e colorida por um tom emotivo ao invés de intelectual ou moral, seus assuntos possuem uma qualidade universal praticamente não afetada pelo tempo. Ler um diário de uma dama da corte do século 10 continua sendo uma experiência comovente, porque ela descreve com tamanha honestidade e intensidade seus sentimentos mais profundos que o leitor moderno se esquece do abismo da história e dos costumes sociais separando o mundo dela do nosso.

A linguagem japonesa "pura", imaculada e intocada pela influência chinesa, continha muitíssimas poucas palavras de natureza abstrata. Assim como o inglês tomou emprestadas palavras como moralidade, honestidade, justiça e outras mais do continente, o japonês tomou esses termos da China; mas se a língua japonesa estivesse com escassez de vocabulário apropriado para um ensaio Confucionista, ela poderia expressar quase infinitos tons de conteúdo emocional. Um poeta japonês que estivesse insatisfeito com as limitações impostas por sua língua nativa ou que quisesse descrever assuntos pouco emocionais — seja o passeio quieto de um senhor idoso pela margem do rio ou a noção do poeta da sua insignificância em relação à grandeza do universo — naturalmente começaria a escrever poesia em chinês. Na maioria das vezes, porém, escritores japoneses, longe de se sentirem insatisfeitos com os limites de expressão impostos pela sua língua, estavam convencidos de que a perfeição virtuosa em criar frases e o refinamento aguçado de sentimento eram muito mais importantes à poesia do que expressar conceitos intelectuais satisfatórios.

Do século 16 adiante, muitas palavras que foram excluídas da poesia japonesa por conta das suas origens estrangeiras ou seus significados simples, seguindo o que ditavam os "códigos" da expressão poética estabelecidos no século 10, foram adotados por praticantes do haiku, originalmente um verso iconoclasta e popular. Esses códigos de expressão poética, acompanhados por uma considerável quantidade de criticismo, foram o resultado de uma sensibilidade literária refinada, promovidas especialmente pelas tradições da corte, e foram comumente compostas pelos principais poetas e dramaturgos. Esses códigos exerciam um efeito inibidor em novas formas de composição literária, mas eles também ajudaram a preservar um distinto tom aristocrático.

A própria língua japonesa também modelou ferramentas e formas poéticas. O japonês não possui acentos rítmicos e rimas significativas (todas as palavras terminam com uma entre cinco vogais simples), dois traços característicos da poesia no Ocidente. Em contraste, em japonês, a poesia era distinta da prosa principalmente porque ela consistia de versos alternados de cinco e sete sílabas; porém, se a expressão emocional não for intensa, só essa distinção não é suficiente para impedir que o poema acabe se tornando prosa. A dificuldade em manter um nível alto de intensidade poética se dá pela preferência por versos cursos que poderiam ser polidos com cuidado perfeccionista. Mas não importando o quão comovente um tanka (verso de 31 sílabas) pode ser, ele claramente não consegue compensar algumas das funções de formas poéticas mais extensas, e não há equivalentes japoneses a longos poemas da literatura Ocidental, como o Paraíso Perdido de John Milton ou a Divina Comédia de Dante. Ao invés disso, poetas japoneses dedicaram seus esforços em aperfeiçoar cada sílaba das suas composições, expandindo o conteúdo de um tanka com sugestões e alusões, e valorizando diferentes tons e dicções mais do que originalidade ou precisão na expressão.

A sintaxe fluida da prosa não afetou apenas o estilo mas também o conteúdo. Sentenças japonesas são, algumas vezes, de comprimento desordenado, correspondendo às reviravoltas subjetivas dos pensamentos do autor, e as transições suaves entre as sentenças, ao invés de possuir uma unidade estrutural, são consideradas sinais de uma prosa excelente. De acordo com isso, as obras mais extensas às vezes revelam uma falta de estrutura do tipo associada no Ocidente com os conceitos gregos de forma literária, mas ao invés disso, consistem em episódios ligados cronologicamente ou por outras associações. A dificuldade dos escritores japoneses de organizar suas impressões e percepções em obras contínuas podem explicar o desenvolvimento dos gêneros de diário e relatos de viagens, gêneros em que dias sucessivos ou os estágios sucessivos de uma jornada providenciam uma estrutura para descrições que, de outra maneira, seriam desconexas. A literatura japonesa contém alguns dos romances e peças de teatro mais longas do mundo, mas sua genialidade é mais surpreendentemente demonstrada em obras curtas, seja o tanka, o haiku, as peças Noh (também chamadas No, ou nō), ou diários poéticos.
A literatura japonesa foi diretamente influenciada pela China, mas a relação entre ambas as literaturas é complexa. Apesar dos japoneses terem sido criticados (até mesmo por outros japoneses) por suas imitações de inspirações chinesas, os romances japoneses mais antigos antecedem seus correspondentes chineses em centenas de anos e o teatro japonês se desenvolveu independentemente. Por conta dos idiomas chineses e japoneses serem desconexos, a poesia japonesa naturalmente tomou formas diferentes, apesar de influências da poesia chinesa e suas teorias literárias estarem sempre nas mentes dos poetas japoneses. Japonês e coreano podem ser línguas relacionadas, mas a influência da literatura coreana era insignificante, apesar dos coreanos terem praticado a importante função de transmitir os trabalhos literários e filosóficos da China para o Japão. Poesia e prosa escrita em coreano eram desconhecidas aos japoneses até tempos relativamente modernos.

Do século 8 até o século 19, a literatura chinesa era mais prestigiada pelos estudiosos japoneses do que sua própria literatura; mas uma paixão pelos clássicos japoneses, especialmente aqueles compostos na corte nos séculos 10 e 11, gradualmente se espalhou pelo povo e influenciou a expressão literária em todas as suas formas, mesmo entre as músicas e contos criados por pessoas humildes, totalmente alheias à realidade aristocrática descritas na literatura clássica.

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